COMO SE CRIAM AUTOIMAGENS
- CLÍNICA HUMANÍSSIMA
- 2 de jul. de 2024
- 5 min de leitura
Para que o ser humano construa sua identidade ele necessita de modelos. Todas as crianças nascem sem um senso do “eu”. Elas têm que aprender a “ser humanas”.
Como um bebe constrói imagem de si mesmo? Tendo sido ligado à mãe durante nove meses ele não sabe onde acaba e começa o resto do mundo. Ele começa a explorar e tatear. Com o passar do tempo percebe que tem um corpo. Percebe a diferença entre colocar um biscoito na boca da mãe e na sua própria boca. Ele e a mãe são diferentes!! Mas, ainda se percebe uma extensão dela. O cérebro vai amadurecendo e o bebe começa a falar. Aprende os símbolos. Aprende seu nome. Isso representa um grande passo à frente. Ele se sente separado dos demais.
Antes de aprender as palavras, o bebê registra impressões generalizadas sobre si mesmo e o mundo baseado na maneira como é tratado. Se for posto no colo com carinho, sente o aconchego e a segurança. Entretanto, se é sacudido ou pego com indiferença sente que não tem valor. Sabe quando sua fome é respeitada ou ignorada. O toque, as palavras, o tom de voz, os movimentos corporais, as tensões musculares são transmitidas a ele como mensagens constantes. Os bebês possuem um radar preciso de diferentes graus de sensações. São sensíveis ao estado emocional da mãe.
Uma mãe que centraliza suas atenções no bebe, brincando, respondendo aos seus balbucios, olhando nos olhos, acariciando, estando relaxada e calma passa mensagens de receptividade e de valorização ao bebe. Por outro lado, a mãe que aproveita a hora da amamentação para ler, ver televisão, sustentando-o indiferentemente, quando bebe balbucia ela não toma conhecimento, nem sequer olha nos seus olhos. Não há um encontro terno, humano, de pessoa para pessoa. Essa experiência passa ao bebe mensagens de que não merece atenção. Para ele o mundo é um lugar frio no qual tem pouca importância.
O grau de receptividade carinhosa proporcionada no encontro humano cria bases de uma visão positiva futura do eu. Esta construção vem da forma de atenção, sorrisos, carinhos, canções, conversas e trocas realizadas com a criança. Esses reflexos colocam a criança no caminho da autoestima elevada. Pais que tratam a criança com frieza e impessoalidade não lhes transmitem as primeiras impressões de importância. Não há alegria para um ser humano em ser recebido com indiferença e rejeição.
Ficar irritado, distante ou tenso com seu filho de vez em quando não causa danos permanentes. O importante é o total de mensagens de amor ou desinteresse e sua intensidade.
Portanto, antes mesmo de falar a criança recebe milhares de mensagens sobre si mesma através da interação com o outro. Essas impressões deixam marcas profundas.
A criança pequena não tem preocupação com as necessidades dos outros. Quando a criança, por exemplo, tira o brinquedo do amiguinho, e este chora, o choro é indiferente para a criança. A mãe, então, repreende: “Não faça isso. Menino feio!”
Como os pais são espelhos significativos, ao ser chamado de “feio”, a criança conclui que esta é uma de suas qualidades e adota este rótulo. As palavras e atitudes dos pais contem um peso grande, desenvolvendo na criança reflexos negativos de si mesma.
Uma criança que costuma ouvir: “Não posso com esse menino”; “Ele é impossível”; “Por que não tira notas melhores, como sua irmã?”; “Mal posso esperar que as férias acabem e você volte para a escola”; Não agüento mais!”; “Tenho pena dos professores!”. Não é de se surpreender que tenha um juízo negativo de si mesmo. As palavras têm poder! Elas podem destruir ou fortalecer o autorrespeito. Uma criança que vive situações de acusações verbais constantes pode concluir que: “Devo ser uma pessoa muito má! Se nem meus próprios pais não gostam de mim, quem vai gostar”. Lembrando que explosões não-verbais negativas ocasionais não causam danos permanentes.
Você poderá dizer: “Conheço muitas pessoas que, quando criança, tiveram uma relação difícil com os pais e com a vida em geral, mas apesar disto, tiveram sucesso e parecem seguras e realizadas.” Realmente, muitas pessoas passam uma imagem externa de sucesso, mas no íntimo pagam o preço de viverem escondidas atrás de máscaras de falsa autoconfiança. São pessoas com defesas neuróticas muito altas, alienadas e insatisfeitas. Solitários, não gostam de si mesmos, podem usar o trabalho como uma fuga.
A verdadeira autoestima é o sentimento mais íntimo sobre nós mesmos e não a aparente felicidade e a acumulação de riquezas e posição social. Para isso a pessoa precisa, quando criança, viver experiências que lhe provem que tem valor e é digna de ser amada.
Os pais são espelhos extremamente importantes na vida do filho. Para as crianças pequenas os pais são todo-poderosos. Assim, concluem: “Esses deuses poderosos me tratam como mereço ser tratada; o que dizem a meu respeito é o que sou”. As ações dos pais têm reflexos poderosos no avanço do senso de individualidade da criança.
Logicamente, os pais não são os únicos espelhos dos filhos. Todas as pessoas que passam algum tempo com eles influenciam na autoimagem. Então, avós, professores, babás, parentes, vizinhos, irmãos, afetam no resultado de como a criança se vê.
Professores afetam muito a autoimagem da criança por exercerem acentuado poder sobre ela. Os irmãos são espelhos importantes pela troca de estímulos, competição e por serem parte íntima de sua vida.
Crianças que tem suas características valorizadas por outras da mesma idade se sentem mais adequadas. No entanto, aquelas cujos interesses e valores discordam visivelmente das outras se sentirão com menor valor. A partir dos seis anos, quando começa a se libertar da dependência emocional da família, toda criança necessita do apoio social das demais crianças que compartilham dos mesmos valores. A atitude dos demais em relação à capacidade da criança é mais importante do que a posse de determinadas características. A existência de uma deficiência não é tão importante quanto as reações que ela provoca nas pessoas. Atitudes de pena, desprezo fazem a criança se sentir inadequada e infeliz. Como consequência, a imagem que de si própria naquela área torna-se defeituosa.
A escola apresenta várias situações em que a criança se experimenta ser capaz. Na sala de aula e no recreio uma gama de obstáculos é apresentada e devem ser superados. Se isto acontecer a criança amadurece física e mentalmente, desenvolve respeito pelas suas capacidades mentais, tem evidências de que é adequada na escola.
O êxito que a criança obtém tem mais peso se ocorrer em áreas importantes para ela. Uma criança que se destaca como aluno de música e é um fracasso nos esportes pode se sentir desvalorizada por não ser reconhecida pelos demais por seu talento musical.
A imagem que a criança tem de si mesma se constrói a partir das interações com os demais, através dos reflexos produzidos por estas interações, tais como, o tratamento que recebe das pessoas, o domínio físico sobre si mesmo e o ambiente, o grau de realização e reconhecimento em áreas importantes. Esses reflexos tornam-se referenciais para a autoimagem e autoconceito, dando as respostas à pergunta: “Quem sou eu?”
Essa imagem de si pode não ser exata. Todo o ser humano tem um eu e uma autoimagem. Quanto mais próxima à autoimagem estiver do eu a pessoa vive mais realisticamente. Quanto mais o autoconceito corresponder às características reais de uma pessoa, provável o seu sucesso. Quando a criança absorve as descrições que os outros fazem dela, procura responder em atitudes a estas descrições. O juízo que a criança faz de si mesma vem a partir dos outros. Ela se vê tendo como referência os reflexos produzidos nos outros: os espelhos que vão modelar sua autoimagem. O que acontece com a criança e as pessoas que a cercam tem importância fundamental. Quanto mais a criança gosta da sua autoimagem, maior sua autoestima.

Comentários